Hearthstone

Divas de Eluna: Assédio nos jogos

“(…) há 10 anos ele me persegue. IRL, e em jogos on line… quando encontro um core (grupo em World of Warcraft) ele entra nele, diz pro raide líder, que quer se reaproximar de mim (…) vivo trocando de servidor… ele chegou a mandar ataque msdos no meu pc para eu não conseguir usar o pc.”

Este é um trecho de um dos relatos mais marcantes que tive a tristeza de ler e que me fez refletir sobre algo que é pouco falado, mas muito vivido por todas as mulheres no universo dos jogos: o assédio.

Este é um mal silencioso, que trás consigo o machismo travestido de piadas, cantadas e comentários de mau gosto. Apesar das mulheres já representarem 58,9% do público no Brasil, segundo a Pesquisa Games Brasil¹, a maioria não escapa de já ter sofrido, ao menos uma vez, algum xingamento ou outros tipos de assédio quando online.

Para se proteger, muitas mulheres evitam usar microfones, utilizam apelidos neutros, ou qualquer outra forma que a identifique, e assim deixam de aproveitar todas as possibilidades que o jogo oferece.

“Acho que uma das piores experiências pra mim foi em uma guild (World of Warcraft). Eu entrei lá logo após a minha ter fechado, é um dia estavam fazendo Mítico+ (Masmorra na expansão Wod). Eu perguntei se poderia ir junto, e eles sabiam que era mulher. Um deles já falou: me passa seu Facebook, se for bonita a gente leva e nem cobra o rush”.

“Criei uma guild (World of Warcraft), ele colocou um alt dele na guild (personagem secundário), depois descobri que era ele… É um inferno… não me fixo nos lugares… Parei de ir nos eventos de anime, pois ele sempre vai pra me procurar, apesar de detestar eventos de anime. Ele já foi até em trabalho meu.”

É importante ressaltar que a banalização de atitudes como essas devem ser combatidas dia após dia. Não se deve achar que “é bobeira”, “frescura” ou qualquer coisa deste gênero. Só quem já sofreu sabe o quão constrangedor, e até assustador, é uma situação onde a mulher é colocada como inferior, é banalizada e tem suas habilidades diminuídas pelo simples fato de ser mulher.

“My Game my name”

Na hora do jogo não tem frágil ou forte, não tem louça, não tem cozinha, o que tem é um embate de habilidades onde quem for o melhor, o mais astuto vai vencer.

“Não sei o que eles têm na cabeça. Acham q a gente está no jogo procurando namorado, sei lá. Adoram pedir dados sobre nossa vida pessoal. Que eu saiba eu logo no jogo porque eu quero jogar.”

Projetos como #MyGameMyName² existem justamente para dar suporte as mulheres. Liderado pela ONG Wonder Women Tech (WWT), em parceria com a Women Up Games, o projeto convidou Youtubers Gamers brasileiros a jogarem utilizando apelidos femininos em jogos e gravarem a experiência. As reações são as mais diversas e deixam uma lição importante para muitos que até imaginavam o quão ruim é o assédio sofrido por mulheres mas, sentindo na pele, perceberam que era bem pior do que se imaginavam.

A ideia do movimento é causar empatia, engajamento e transformar uma situação de constrangimento numa luta de todos em prol do fim da toxidade de um ambiente que tem tudo para ser o mais receptivo e inclusivo.

Mais importante ainda é denunciar e cobrar atitudes da empresa responsável pelo jogo no qual você sofreu assédio! Não existe jogo para homem e jogo para mulher, o que existe são bons jogos que podem e devem ser apreciados por todos que se interessarem afim de que se divirtam e tenham a melhor experiência possível.

Podemos ser diferentes em muitos aspectos, mas temos algo em comum: o amor pelos games. Se, um dia, conseguirmos unir o público indiferente de gênero ou orientação sexual atingiremos o objetivo mais perseguido por todos nós: a diversão com o respeito e prazer que todos merecemos.

“Eu só quero poder jogar e me divertir. Poder ser eu mesma sem precisar usar um Nick X ou Y porque senão vou sofrer assédio ouvindo cantadas, xingamentos e simplesmente ser medida pelo meu gênero e não pelo meu jogo.”

Todos os comentários entre aspas foram enviados a mim via whatsapp, em uma conversa sincera e sensível. As identidades das jogadoras permanecerão anônimas.

Links

¹ pesquisagamebrasil.com.br
² mygamemyname.com

"Estranha de um jeito muito particular e criativo". Um meme em forma de jogadora de hearthstone e vice versa. Apaixonada por dois dragões: Draco Lazuli e Ysera. Também jogadora de RPG de mesa, jogos em consoles antigos e uma escritora que busca inovar todos os dias. Pela Aliança!